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Friday, 13 February 2026
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John Bolton: 'Já Passamos do Pico Trump' – Análise do Futuro Político Americano e Conflitos Globais

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John Bolton: 'Já Passamos do Pico Trump' – Análise do Futuro Político Americano e Conflitos Globais
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Washington D.C., EUA - Agência de Notícias Ekhbary

John Bolton: 'Já Passamos do Pico Trump' – Análise do Futuro Político Americano e Conflitos Globais

John Bolton, uma figura proeminente e por vezes controversa na política externa americana, que serviu todos os presidentes republicanos desde Ronald Reagan, incluindo um período de 17 meses como Conselheiro de Segurança Nacional na primeira administração de Donald Trump, lançou uma análise incisiva sobre o cenário político atual e futuro. Numa entrevista aprofundada, Bolton, conhecido pelas suas posições de linha-dura e defesa da intervenção militar, declarou categoricamente: "Já passamos do pico Trump. Agora estamos na encosta descendente." Esta afirmação não é apenas uma observação, mas um prognóstico audacioso sobre o destino do movimento MAGA e a dinâmica do Partido Republicano.

As declarações de Bolton surgem num momento de intensa especulação sobre o futuro de Trump e a sua potencial influência nas eleições intercalares de 2026 e além. A sua própria experiência com Trump foi tumultuosa, culminando na sua saída em meio a divergências políticas e, mais recentemente, enfrentando acusações de manuseamento indevido de documentos classificados, um caso que ele atribui a uma "presidência de retribuição" iniciada pelo próprio Trump em 2020. A sua casa foi alvo de uma busca do FBI em agosto, e posteriormente foram apresentadas acusações, com o caso ainda em andamento. Bolton argumenta que tanto democratas quanto republicanos têm se envolvido em 'lawfare', mas que Trump o leva a um extremo que provoca uma reação adversa.

A Visão de Trump para a Paz na Ucrânia: Uma "Ilusão de Segurança"

Um dos pontos centrais da discussão girou em torno da proposta de Donald Trump de alcançar um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia até o Natal. Bolton desqualificou essa meta como "apenas mais um prazo de Trump", uma tentativa de impulsionar uma agenda sem uma compreensão estratégica profunda. Ele alertou que as concessões feitas pela Ucrânia e pelos seus aliados europeus, como a ideia de realizar eleições no ano novo e aceitar uma linha de cessar-fogo ao longo da frente existente, são um erro grave. A sua preocupação principal é que qualquer acordo apressado não "conterá os russos dois ou três anos a partir de agora, quando fizerem a invasão número três".

Bolton criticou abertamente a abordagem de Trump, do seu enviado especial Steve Wittkoff e de Jared Kushner, afirmando que "eles querem um acordo. Não se importam realmente com os termos do acordo, mas querem-no a tempo para o prazo de 31 de janeiro do comité do Prémio Nobel da Paz para as nomeações." Esta perspetiva sugere que a motivação por trás da busca de paz de Trump pode ser mais pessoal e política do que estratégica para a segurança global. A ideia de que a Ucrânia possa desistir da adesão à NATO em troca de garantias de segurança fortes é, para Bolton, um "grande erro". Ele questiona a fiabilidade de Trump em relação ao Artigo 5 da NATO, que estipula que um ataque a um membro da aliança é considerado um ataque a todos, e, portanto, a sua capacidade de oferecer garantias de segurança fora do contexto da NATO é uma "ilusão de segurança", especialmente porque não haveria tropas americanas na Ucrânia para servir como um 'gatilho' para o envolvimento dos EUA.

O Cenário de Cessar-Fogo e a Estratégia Russa

A discussão aprofundou-se nas implicações de um cessar-fogo. Bolton expressou ceticismo de que a Rússia alguma vez abandonaria o controlo de 20% do território ucraniano uma vez que o tivesse. Ele argumentou que, embora o Presidente Zelenskyy e a maioria dos europeus compreendam isso, Trump parece não o fazer ou não se importar. Bolton tem defendido há muito tempo que um cessar-fogo ao longo da linha de batalha atual beneficiaria a Rússia, dando a Putin tempo para "reconstruir a sua economia, reconstruir o seu exército, restaurar a frota do Mar Negro – um terço da qual está agora no fundo do Mar Negro." Ele acredita que, apesar das aparências, a Rússia tem prosseguido o conflito contra os seus próprios interesses, contando com uma guerra de atrito para desgastar a Ucrânia, mas que Putin aceitaria um acordo, mesmo que não seja uma capitulação total ucraniana, se obtiver concessões suficientes, para evitar ser ridicularizado por Trump.

A Relação de Trump com Putin e a Geopolítica

A proximidade de Trump com Putin é um tema recorrente. Bolton atribui isso à admiração de Trump por "figuras fortes", seja Putin, Xi Jinping, Recep Tayyip Erdoğan ou Kim Jong Un, e a uma espécie de inveja. Ele ecoa a caracterização de Lenin de Trump como um "idiota útil", sugerindo que Putin, com a sua formação na KGB, "identifica as fraquezas do seu alvo e depois as explora." Bolton observa que Trump consistentemente "vira-se para a posição russa" após interações com Putin, seja por telefone ou em cimeiras. Embora não haja evidências concretas de material comprometedor, Bolton acredita que a "falta de teoria estratégica, filosofia e política" de Trump o torna facilmente manipulável pelos russos.

Uma nova estratégia de segurança da Casa Branca que retrata a Europa como o verdadeiro adversário da América, e não a Rússia ou a China, foi recebida com ceticismo por Bolton. Ele duvida que Trump tenha lido o documento, que parece "escrito para uma administração JD Vance" e é "estrategicamente retrógrado". Embora seja um crítico de longa data da União Europeia, Bolton enfatiza que a Europa continua a ser um aliado dos Estados Unidos. Ele minimiza a retórica sobre "apagamento civilizacional" na Europa e a intervenção para instalar novos governos, vendo-a como retórica que os europeus devem "apenas cerrar os dentes e dizer: vamos superar isso como muitas retóricas de Trump."

"Pico Trump" e o Futuro do MAGA

Apesar da dominância do movimento MAGA no Partido Republicano, Bolton sustenta que "já passamos do pico Trump". Ele aponta para a preocupação dos republicanos no Congresso com as eleições intercalares de novembro de 2026 e sinais de "fragmentação" e "revolta dentro do partido", citando o exemplo do Partido Republicano de Indiana que se recusa a redistritar. Bolton argumenta que, como em qualquer segundo mandato presidencial, chega um ponto em que o presidente se torna um 'pato manco', perdendo parte da sua influência. Ele adverte contra tirar conclusões precipitadas que seriam difíceis de reverter, especialmente no que diz respeito à Ucrânia, onde o apoio no Congresso é "muito forte". Desistir seria dar à Rússia e à China o que a União Soviética tentou em vão durante a Guerra Fria: "quebrar a aliança do Atlântico Norte."

A situação no campo de batalha "não é desesperadora", segundo Bolton. Ele reconhece que a Rússia está a avançar lentamente, mas a um "custo extraordinário" em termos humanos e materiais. A estratégia de Zelenskyy de "negociar um pouco com Trump" faz sentido para Bolton, para "arrastar a situação" e tentar culpar Putin pelo fracasso, mesmo que Trump "ainda não esteja pronto para aceitar que o seu amigo Vlad é o verdadeiro problema." Ele defende continuar a fortalecer a Ucrânia militarmente, criticando as administrações Biden e os membros europeus da NATO por não terem dado à Ucrânia o que precisava para vencer devido ao "medo constante de uma guerra mais ampla, que nunca aconteceria."

Reparação da Confiança e o Legado de Trump

A questão da reparação da confiança entre a Europa e os EUA é crucial. Bolton adverte que se a Europa "basicamente disser que é inútil, que essas pessoas perderam a cabeça", isso pode tornar-se uma "profecia autorrealizável". A pior coisa a fazer seria "dar a Trump uma desculpa para deixar a NATO. Então, teríamos realmente um problema." A possibilidade de JD Vance se tornar o próximo presidente é vista como remota por Bolton, que aponta que apenas três vice-presidentes em exercício se tornaram presidentes na história americana. Ele descreve os eleitores de Trump como um "culto de personalidade" que votará apenas em Trump, vendo-o como alguém que "luta por eles". Esta lealdade, na sua opinião, torna Trump "perigoso", capaz de mudar as suas posições sem perder o apoio dos seus seguidores, reminiscentes da distopia de George Orwell.

Sobre o estilo não convencional de Trump, Bolton é cético quanto à sua utilidade, especialmente na reconstrução da NATO sem os EUA ou dentro da União Europeia, o que "não vai funcionar". Ele alerta que a Rússia e a China, se Trump estiver a destruir as alianças americanas, "farão tudo o que puderem para o encorajar." A estratégia mais inteligente para lidar com Trump, segundo Bolton, foi a de Shinzō Abe do Japão: "falar com Trump o tempo todo. Ir visitá-lo. Jogar golfe com ele. Não pedir nada até o ponto em que realmente precise de algo." Ele também elogiou Boris Johnson, Mark Rutte (como secretário-geral da NATO) e Alexander Stubb (presidente finlandês) pela sua capacidade de lidar com Trump, contrastando com Friedrich Merz, cujas conversas sobre a independência europeia foram contraproducentes, dando a Trump a desculpa para dizer: "ótimo, sejam independentes. Isso dá aos russos o que eles querem."

Em suma, a visão de John Bolton é a de um cenário geopolítico volátil, onde as ações de líderes como Trump têm repercussões profundas nas alianças e nos conflitos globais. A sua convicção de que "já passamos do pico Trump" oferece uma esperança para alguns, mas também um alerta sobre os desafios persistentes que o mundo enfrenta na era pós-Trump, ou mesmo numa potencial segunda administração Trump.