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Saturday, 14 February 2026
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Quando o peixe para de morder, os pescadores de gelo seguem a multidão

Estudo finlandês revela que o comportamento de grupo supera

Quando o peixe para de morder, os pescadores de gelo seguem a multidão
Matrix Bot
5 days ago
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Finlândia - Agência de Notícias Ekhbary

Quando o peixe para de morder, os pescadores de gelo seguem a multidão

Face aos desafios ambientais, os seres humanos empregam estratégias complexas para a aquisição de recursos, decisões que frequentemente espelham os comportamentos de forrageamento dos nossos antepassados. Nos longos e gélidos invernos da Carélia do Norte, Finlândia, onde a pesca no gelo é um passatempo apreciado, um estudo científico recente revelou uma tendência fascinante: os pescadores são mais propensos a seguir o grupo do que a confiar na sua experiência individual quando as capturas são escassas. Publicadas na prestigiada revista *Science*, estas descobertas oferecem novas perspetivas sobre a evolução da cognição humana complexa e a dinâmica da tomada de decisão coletiva.

O ato de forrageamento – seja a colheita de bagas, a escavação de tubérculos ou a atração de peixes sob uma espessa camada de gelo – tem sido um pilar da sobrevivência humana ao longo da história. Os indivíduos desenvolveram há muito tempo modelos mentais para avaliar o tempo e a energia ótimos para a exploração de recursos numa determinada área antes de se deslocarem para outro local. A investigação tradicional sobre o forrageamento humano frequentemente assumiu uma dependência primária do conhecimento pessoal ao selecionar ou abandonar um ponto de recursos. No entanto, grande parte desta investigação baseou-se em forrageadores solitários ou, mais recentemente, em participantes de videojogos online que simulavam cenários de recolha de recursos em ambientes de laboratório controlados.

A realidade do forrageamento na natureza, como salienta o estudo finlandês, apresenta um quadro diferente. Em ambientes naturais, particularmente em condições de escassez, os indivíduos frequentemente procuram recursos juntamente com outros. Em vez de se aventurarem sozinhos em ambientes potencialmente perigosos, emerge uma estratégia comum: seguir a multidão. Os investigadores sugerem que este comportamento não é apenas uma questão de segurança, mas também uma tática calculada para melhorar a probabilidade de sucesso quando os recursos são difíceis de encontrar.

O estudo, liderado por investigadores incluindo o psicólogo Alexander Schakowski do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano em Berlim, utilizou competições de pesca no gelo como um experimento natural. Ao longo de 10 torneios realizados na Carélia do Norte em 2022 e 2023, 74 participantes foram equipados com câmaras montadas na cabeça e dispositivos de rastreamento GPS. Esta abordagem inovadora permitiu aos cientistas observar meticulosamente como os concorrentes escolhiam os locais de pesca, quanto tempo permaneciam e quando decidiam mudar-se. O objetivo era aproximar o comportamento de forrageamento no mundo real, onde os indivíduos devem equilibrar os benefícios de permanecer num local potencialmente produtivo contra os custos de se deslocar para um local novo e, possivelmente, mais frutífero.

A análise dos dados recolhidos revelou um padrão significativo: os pescadores, especialmente aqueles que tiveram pouca sorte, eram mais propensos a juntar-se a grupos de outros pescadores do que a depender exclusivamente da sua intuição ou experiência prévia. A decisão de permanecer num local de pesca específico ou de o abandonar foi influenciada pelo sucesso pessoal, mas em tempos de baixo rendimento, a influência social – observar e seguir as ações dos outros – tornou-se um fator decisivo. Os concorrentes frequentemente formavam pequenos grupos de cinco a dez pessoas. Curiosamente, estes grupos nem sempre exibiam comportamento cooperativo; os participantes falavam pouco, mantinham distância física e, por vezes, escondiam as suas capturas, sugerindo que seguir o grupo pode ser uma estratégia para alavancar os esforços dos outros sem necessariamente formar fortes alianças.

O Dr. Alexander Schakowski observa que a dependência individual e a sabedoria do grupo são "quase igualmente importantes". No entanto, o estudo sugere fortemente que o "grupo" desempenha um papel mais crítico em circunstâncias difíceis. Esta tendência de seguir a multidão não é exclusiva dos pescadores de gelo; representa uma estratégia adaptativa generalizada observada em humanos e muitas outras espécies ao enfrentar recursos limitados.

Compreender como os humanos tomam decisões de forrageamento em ambientes extremos, desde as florestas tropicais até à tundra ártica, pode fornecer informações valiosas sobre a evolução da inteligência humana. Como comentou a Dra. Friederike “Freddy” Hillemann, ecóloga comportamental da Universidade de Durham, que não participou no estudo: "Isto dá-nos mais informações sobre os impulsionadores da inteligência." A capacidade de avaliar informações de múltiplas fontes – tanto a experiência pessoal como as ações dos outros – é uma marca das capacidades cognitivas avançadas.

Embora a pesca no gelo como método de subsistência possa ser menos comum hoje em dia nos países nórdicos, continua a ser um desporto muito popular, com eventos na Finlândia a atrair milhares de participantes. Estas competições proporcionaram um laboratório natural ideal para o estudo do comportamento de forrageamento num contexto social. Investigadores, incluindo o ecologista aquático Raine Kortet da Universidade da Finlândia Oriental, que ajudou a recrutar os melhores pescadores locais, reconheceram a oportunidade única que estes torneios ofereciam para compreender a dinâmica da tomada de decisão coletiva.

Esta investigação sublinha a importância duradoura da interação social nas estratégias de sobrevivência, mesmo na era moderna. Enquanto o conhecimento pessoal permanece crucial, a capacidade de aproveitar a "sabedoria da multidão", especialmente quando os recursos são escassos, emerge como um poderoso mecanismo adaptativo. Compreender estas dinâmicas não só ajuda a explicar o comportamento humano em contextos como a pesca, mas também oferece profundas ideias sobre os caminhos evolutivos das complexas capacidades cognitivas que definem a nossa espécie.

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