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Trump Busca Reafirmar Influência Americana na América Latina Frente ao Avanço Chinês
O ex-presidente Donald Trump está promovendo a Cúpula "Escudo das Américas" em sua propriedade de golfe, um encontro estratégico com líderes de nações selecionadas da América Latina e do Caribe. O evento, agendado para este sábado, tem como objetivo principal reforçar os laços dos Estados Unidos com aliados regionais em torno de interesses de segurança nacional e, crucialmente, contrabalançar a crescente presença e influência da China no hemisfério ocidental. Esta iniciativa surge em um momento em que os EUA, após um período de foco em outras regiões globais durante a última década, tentam recuperar terreno na América Latina.
Nas últimas décadas, a China emergiu como um player dominante na região, tornando-se o principal credor e parceiro comercial para muitas nações. Financiamentos vultosos em megaprojetos de infraestrutura, como o Porto de Chancay no Peru, avaliado em US$ 3,5 bilhões, e o metrô de Bogotá na Colômbia, exemplificam o alcance econômico chinês. Diante desse cenário, o governo americano sinaliza uma determinação em reverter essa maré, buscando recuperar a relevância estratégica e econômica perdida.
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No entanto, especialistas no assunto advertem que a abordagem dos Estados Unidos pode enfrentar desafios significativos. A estratégia de reconstruir relacionamentos e afirmar sua influência na região parece ir além de meras demonstrações de força militar, imposição de tarifas ou táticas de pressão. A construção de parcerias sólidas e sustentáveis exige uma diplomacia mais matizada e um compromisso de longo prazo.
A liderança diplomática deste esforço americano é atribuída a Kristi Noem, governadora do Dakota do Sul, que foi nomeada enviada especial para a cúpula. Sua nomeação ocorre em meio a rumores de sua potencial inclusão na equipe de segurança interna de Trump, embora tenha sido dispensada publicamente por ele nesta semana. "Neste novo cargo, poderei construir sobre as parcerias e a expertise em segurança nacional", declarou Noem em sua plataforma X (anteriormente Twitter), após sua demissão. Ela estará acompanhada por líderes conservadores de oito nações: Argentina, Paraguai, El Salvador, Chile, Panamá, Honduras, Guiana e Equador. Estes países compartilham laços ideológicos com a administração Trump. Notavelmente, Colômbia, México e Brasil não estarão presentes no evento.
Evan Ellis, professor de estudos latino-americanos no Instituto de Estudos Estratégicos do Colégio de Guerra do Exército dos EUA, antecipa que a cúpula abordará temas críticos como o combate ao tráfico de drogas, gestão migratória, contraterrorismo e, fundamentalmente, a contenção da influência de Pequim no hemisfério. Ellis compara o evento a uma versão latino-americana da Conservative Political Action Conference (CPAC), um encontro anual de políticos de direita dos Estados Unidos.
A administração Trump declarou que a cúpula tem como objetivo "recrutar e expandir" o círculo de amigos dos EUA no Hemisfério Ocidental, ao mesmo tempo em que busca limitar o engajamento chinês em toda a América. Isso inclui esforços para impedir que potências rivais estabeleçam bases militares ou estratégicas na região. A reunião segue um padrão recente de atenção de Trump ao Caribe e suas declarações anteriores sobre a necessidade de os EUA "retomarem" o controle do Canal do Panamá da China. A pressão americana já gerou mudanças notáveis, como a deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a decisão do Supremo Tribunal do Panamá de cancelar contratos de uma empresa de Hong Kong relacionados ao canal.
Contudo, o governo americano enfrenta obstáculos consideráveis. Enrique Dussel Peters, professor de economia e coordenador do Centro de Estudos Chineses Mexicanos na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), ressalta os desafios. "Os dias de parcerias de desenvolvimento, livre comércio, multilateralismo e até mesmo reciprocidade básica acabaram", afirmou Dussel. Ele descreveu o crescimento da presença chinesa na América Latina e no Caribe como "drástico", enquanto a resposta dos EUA é "tardia e reativa".
Dussel critica políticas como "America First", cortes na ajuda externa e tarifas, argumentando que elas tiveram o efeito de aproximar governos regionais da China, que, por sua vez, investiu décadas na elaboração de uma visão estratégica de longo prazo para a América Latina. Dados recentes corroboram essa análise: entre 2014 e 2023, a China direcionou aproximadamente US$ 153 bilhões em assistência financeira à região, quase o triplo dos US$ 50,7 bilhões contribuídos pelos EUA no mesmo período, segundo a pesquisa da AidData. Até 2024, Pequim formalizou acordos de livre comércio com várias nações latino-americanas, e o comércio bilateral expandiu-se significativamente. Em 2000, o mercado chinês representava menos de 2% das exportações latino-americanas; em 2021, o comércio já ultrapassava US$ 450 bilhões, com projeções de atingir US$ 700 bilhões até 2035.
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A China também investiu pesadamente em infraestrutura, com 20 países aderindo à Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). Desde 2005, bancos estatais chineses emprestaram mais de US$ 120 bilhões para projetos de infraestrutura na região. Estes investimentos visam também o "triângulo do lítio" (Argentina, Bolívia, Chile), essencial para a indústria de baterias, com o presidente Xi Jinping anunciando uma linha de crédito de 9 bilhões de yuans para a região em maio de 2025.
Apesar da percepção de que os empréstimos chineses oferecem menos condicionalidades que os americanos, críticos alertam para o risco de "armadilhas de dívida" para nações vulneráveis, como a Venezuela, que deve US$ 60 bilhões à China. Há também preocupações sobre padrões ambientais e trabalhistas inferiores em projetos chineses e as implicações de segurança nacional do controle chinês sobre infraestruturas críticas. Em resposta a essas críticas e mudanças na dinâmica global, a China tem focado em projetos menores e em tecnologia de ponta, como redes 5G e inteligência artificial, sinalizando uma adaptação em sua estratégia regional.